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quinta-feira, 31 de outubro de 2019

John Bercow


John Bercow


Ainda não saiu e já deixa saudades. Faz parte de uma casta de políticos puros, que fazem sempre falta na política. O Parlamento Britânico vai silenciar-se por momentos com o desaparecimento da mítica presença e carismática voz de ordem de John Bercow. Engraçada e curiosa a forma como termina a sua carreira política deixando muitos na incerteza política sobre as suas convicções actuais. Li na imprensa britânica que até há quem o coloque mais perto do partido trabalhista. Bem, um político de direita não pode ter ideias de esquerda ou aprovar ideias de esquerda (se forem boas como John Bercow chegou a apoiar) que é logo retirado das suas origens e colocado no lado oposto. 

domingo, 27 de outubro de 2019

sobre Camarate





Quando soube da morte de Freitas do Amaral, uma das primeiras coisas em que pensei foi: perdeu-se um dos maiores opositores à falta de investigação ao caso Camarate. Faltava-me ler um dos últimos livros do mesmo sobre o caso, que já o consegui fazer para poder reforçar a estranha inércia e a rebuscada resolução criminosa (indícios da forte possibilidade de ter havido crime - que foi confirmado pela 10.º comissão de inquérito ao caso). Não deixou tudo o que sabia, mas o que deixou do que sabia sobre o caso é o essencial, que permite a todos perceber porque razão foi, em parte, afastado pela esquerda (que nunca o quis por vir da direita) e pela direita (por ter ido para a esquerda), e porque tentou ser um dos políticos mais silenciados da sociedade portuguesa. Diogo Freitas do Amaral sabia demais sobre o caso Camarate. Nunca afirmou que foi crime, nem nunca afirmou que foi acidente, mas colocou todos os indícios que o aproximava de atentado. Mas nunca percebeu porque o Ministério Público arquivou o processo sem investigar, nem porque razão o mesmo não foi a julgamento. Porque razão não investigaram José Esteve ou Lee Rodrigues (principais suspeitos de colocarem uma bomba no avião)? 
Diogo Freitas do Amaral insistiu nas informações trocadas entre a Scotland yard e as autoridades portuguesas. A polícia inglesa andava atrás de Lee Rodrigues e informou a Portugal da presença deste suspeito nos serviços de manutenção da TWA, no aeroporto de Lisboa no dia 04.12.1980 e de que se tratava de um indivíduo perigoso em armas e explosivos. Ele é detido no dia 11 (pelas autoridades inglesas) e recusa-se sempre a falar de Camarate. José Esteves tinha um passado ligado ao tráfico de armas e chegou a ser interceptado com armas e explosivos pela PJ mas nunca foi investigado. Freitas do Amaral esteve envolvido nesta troca de informações, chegando a receber telegramas do embaixador português em Londres que desapareceram. 
A 10.º comissão de inquérito (2015) referiu e concluiu que a queda do avião deveu-se a um atentado, mas isso não chega. Falta rigoroso inquérito ao desaparecimento de variados documentos e sobre correspondência oficial trocada entre vários organismos, entre eles, por exemplo, os acima referenciados, que envolveu Freitas do Amaral, e, mais grave, os que dizem respeito à exportação de material de guerra para o Irão. Muita coisa ficou por apurar.
Uma investigação que ficou por fazer. Os autores imediatos estão identificados, mas foram protegidos estranhamente por um grupo organizado, que teve um único fim. Os autores mediatos deixaram pontas soltas ao longo do tempo. Basta lembrar do duplo homicídio de José Moreira (dono do avião Cessna que transportou Sá Carneiro e Amaro da Costa) e sua mulher em 1983, a poucos dias de revelar no Parlamento tudo o que sabia sobre o caso, sendo testemunha central. Os autores mediatos (que mandaram praticar o atentado) tornaram-se intocáveis, foram peritos de uma das mais bem sucedidas resoluções criminosas (planeamento do atentado).




quinta-feira, 24 de outubro de 2019

Labirinto das promessas políticas





Hoje, todos na União Europeia, não apenas os britânicos, pagam o preço da promessa eleitoral de David Cameron (referendo sobre saída União Europeia realizado em 2016). Mas, parece que a palavra "promessa" já não tem a força de 2016, quando houve o referendo. As sucessivas promessas de saída com acordo de Theresa May e agora as promessas de Boris Johnson de saída com ou sem acordo parecem poderem não passar de promessas, porque os prazos terminam e iniciam-se outros, nem chegam a ser renovados. O último avanço foi aprovação pelo parlamento britânico do princípio de acordo de Boris com Bruxelas, mas o avanço é esse mesmo: um princípio de acordo. Era previsível tal dificuldade, porque o mais importante não são esses princípios de acordo (que já deviam existir há muito), mas sim dar corpo, em termos substanciais, à saída propriamente dita, ou seja, o Reino Unido está preparado, para amanhã, sair da União Europeia? Ninguém acredita, excepto Boris Johnson.

quinta-feira, 17 de outubro de 2019

Hillary Clinton





Sem dúvida, uma das piores coisas que aconteceu à América: não ter eleito Hillary Clinton. Seguramente, muitos, se fosse actualmente, depois da previsível inacção e falta de capacidade de Trump, mudariam a sua opinião e elegeriam Hillary Clinton (que um dia, daqui a muitos anos, talvez se saiba quem realmente foi o real vencedor das polémicas eleições de 2016). Uma enorme mulher, que tive o privilégio de conhecer, e que, não teve oportunidade de mostrar o grande contributo que poderia ter dado à América, porque deturparam a sua imagem e enganaram os americanos, ao passarem a imagem de uma pessoa que não era a de Hillary Clinton. Gostava e espero que se recandidate em 2020 para bem da América e do Mundo. Um mundo com Hillary Clinton na presidência dos E.U.A. será um mundo melhor. 

segunda-feira, 14 de outubro de 2019

Curdos Sírios


Combatentes Curdas Sírias


Hà pouco tempo atrás, quase diariamente ouvíamos falar do Daesh, e, se, isso deixou de acontecer (pelo menos ficou suspenso), deve-se em grande parte aos curdos sírios, às unidades de protecção do povo. Basta lembrar a tão badalada conquista de Raqqa pelos curdos, que era um bastião do Daesh. Os E.U.A. apoiavam os curdos sírios na luta contra o Deash, mas recuaram nesse apoio, e decidiram retirar as suas tropas da Síria. Trump, demonstrando mais uma vez que não está preparado (e talvez nunca tenha estado) para ser Presidente dos E.U.A., justifica-se da impressionante e medíocre forma perante tal retirada: "Nós gastamos um volume absurdo de dinheiro ajudando os curdos, em termos de munição, armas, dinheiro, salários, eles atuaram sim ao lado dos Estados Unidos contra o Estado Islâmico, mas os curdos "estão lutando por sua terra". E, para falar a verdade, eles nem "nos ajudaram na Segunda Guerra Mundial, não nos ajudaram na Normandia, por exemplo". Perante o sucedido, a Turquia não esperou nem um minuto e pôs em marcha o tão desejado e planeado massacre contra os curdos sírios. Os E.U.A., nas mãos do inexperiente e medíocre presidente, tomaram esta decisão sem calcular as consequências, esquecendo que a Turquia dificilmente cumprirá uma possível promessa feita (que até ao momento ninguém sabe), como contrapartida. Este conflito entre Turquia e curdos tem décadas,e, a prisão de Abdullah Ocalan (líder do PKK preso desde 1999, que defendia criação de um estado independente curdo na Síria) não ficou esquecida e será mais uma chama para um conflito, que, dependendo da posição Russa, poderá ter dimensões terríveis. 
Cada vez mais tenho a ideia que Trump não representa a América, porque isto não é nada, isto é uma traição aos curdos sírios que dificilmente um país como os E.U.A. levava a cabo. O congresso americano não deve ter medo. A França, Reino Unido e Alemanha não podem não agir perante isto, e devem manter o apoio aos curdos, como assim foi decidido pela coligação internacional

quarta-feira, 9 de outubro de 2019

Oi Cavaco Silva?





Cavaco Silva, à imagem dos seus aliados políticos, veio a público criticar Rui Rio e indicar o nome de Maria Luís Albuquerque para a sucessão no PSD. Bem, Cavaco Silva deixou-nos com uma das piores imagens políticas dos últimos anos, depois de ter conseguido alguns feitos, que não chegaram para manter patamares mínimos de credibilidade política. Agora, triste não foi o resultado eleitoral, porque esse já aconteceu no passado e o mesmo não teceu tais comentários. Triste é ver alguém que foi líder do PSD a intervir, mais uma vez, com objectivos pessoais, deixando os interesses nacionais para segundo plano, e mais grave, indicar pessoas que jamais poderão ser melhores que o actual líder. Ou alguém acha (sem ser na brincadeira) que Maria Luís Albuquerque é melhor candidata a primeira-ministro do que Rui Rio? Há pessoas que não percebem que o seu tempo político terminou e que as suas intervenções são meras insignificâncias tuteladas por um tempo que já não as qualifica sequer, mas rejeita automaticamente.

terça-feira, 8 de outubro de 2019

Legislativas 2019





Viragem? Poucos dúvidas restam. Quando os votos no pequenos partidos, acrescentando os nulos e os brancos contabilizam 15%, significa que poderá ser o início de uma viragem do sistema político português. Esse número em 2002 era de 3%, e foi sempre subindo. As questões são variadas, os medos são muitos, mas uma coisa é inegável: todos lá chegaram com os votos dos portugueses, embora uns com mais liberdade de escolha e de expressão, e outros com menos liberdade de escolha e expressão. Uns com mais tempo de antena, e outros com menos. Uns com mais simpatia mediática, e outros com menos. Uns com mais ideias, outros com menos. Mas, será que depois do naufrágio à direita (sobretudo no CDS), a esquerda conseguirá a união tão desejada ou, ao invés, teremos uma retracção do Bloco e jogo estratégico do PCP perante o PS, instrumentalizando-o mas jamais sentando-se a seu lado como foi apanágio estes anos?
Quanto à esquerda, os resultados não foram surpresa, com excepção do Livre e do PAN. O PS venceu, como era esperado. A geringonça, na sua globalidade correu bem, e isso seria muito difícil de destronar. Aumentou o número de deputados, mas não conseguiu o suficiente para poder formar maioria com o PAN ou o Livre, como era sua intenção. Assim, precisará sempre do Bloco ou do PCP, ou, no limite, do PSD. 
O Bloco manteve-se. Continua a cativar o seu eleitorado em torno de uma figura carismática: Catarina Martins. E caso assim continue, dificilmente perde o seu eleitorado, a não ser quando a líder sair, um bocado à imagem do que aconteceu com Paulo Portas, no CDS. 
O PCP, à esquerda, foi aquele que teve o pior resultado, perdendo vários deputados, e revelando, mais uma vez, que a sucessão terá de ser debatida no seio dos seus, caso contrário, poderá voltar a ter mais insucessos. Não por culpa de Jerónimo de Sousa, porque foi e é um líder com carisma, mas pelo desgaste da sua imagem e de todos os que o rodeiam. A política, como dizia Ronald Reagen deve ser encarada como um cargo temporário, e não como uma carreira para a vida toda. E aí Portugal é um mau exemplo, onde tem imensas pessoas que viveram e vivem exclusivamente da política.
O PAN foi um dos vencedores da noite. Há muita gente que lida mal com o surgimento e o crescimento deste partido, mas ele foi e é bom para o sistema democrático. Ajudou a sensibilizar o país para questões pouco debatidas e mais importante - com pouco interesse em ser discutidas pelos partidos de regime - e isso tem o seu mérito. Não podemos confundir as coisas, embora existam coisas utópicas e que necessitam de trabalho, acho que a sensibilização para determinadas questões é positivo, sem radicalismos. Por exemplo, refiro-me à medida de acabar com a carne na cantina da Universidade de Coimbra. Tem haver porporcionalidade e adequação das medidas, e acima de tudo, estudo.
O Livre também foi um dos vencedores, porque conseguiu eleger um deputado. Tem ideias similares aos partidos que já existem, como o aumento do salário mínimo nacional, e centra-se muito nas questões ambientais.
No que diz respeito à direita, houve um naufrágio. No PSD, Rui Rio é uma pessoa de valor, que fez um bom trabalho no Porto e fez o trabalho possível neste momento no PSD. Teve e tem sempre lutar contra aqueles que, dentro do seu próprio partido, o querem ver dali para fora. Isso custa, porque o PSD é um ninho de gatos, onde todos têm as unhas afiadas para atirarem-se uns aos outros. O PSD, se tivesse ficado com outro líder da equipa de Passos Coelho, teria um resultado pior que o actual. Rui Rio mexeu com muitos interesses instalados, com lugares garantidos, com nomeações já pré-seleccionadas, com cadeiras destinadas, com promessas e dádivas já acordadas, e isso tem um preço, num partido completamente dividido como o PSD. Mesmo assim, não conseguiu impedir tudo, nomeadamente na escolha dos candidatos, que estes fossem em lugares elegíveis, porque a máquina acaba sempre por funcionar. Mas fez o que podia.
O CDS foi o grande derrotado da noite. Assunção Cristas esteve bem ao sair, mas esteve mal ao não perceber que isto que aconteceu era previsível, e um grande político é aquele que consegue perceber as coisas antes delas acontecerem, e ela não foi capaz. O CDS há muito que detinha um discurso inflamado, de ataque vazio à esquerda, em certos momentos, sem qualquer tipo de nexo e parece que não conseguiam vislumbrar a realidade à sua volta. Por exemplo, lembrar nas eleições europeias, o discurso de Assunção Cristas e o seu candidato, sempre no ataque, no aproveitamento político, sem tomar posição sobre temas importantes do país, revelava que as coisas já não estavam bem. E a colagem ao PSD, sempre deixando no ar possíveis acordos e candidaturas conjuntas, demonstrou e foi sinónimo de fraqueza e esgotamento político. 
O Iniciativa Liberal foi outro dos vencedores, ao eleger um deputado. Um partido que pretende ganhar o espaço do CDS, mas que duvido que apenas assim seja, pois a crescer, levará também muitos sociais democratas.
O CHEGA foi outros dos vencedores, ao eleger um deputado. Aqui há um certo medo, mas parece exagerado, porque estará sozinho. Mas, se analisarmos no seu conjunto, acho que, independentemente de, como a maioria, não me rever nas suas políticas (algumas completamente descontextualizadas da realidade e do século XXI), há coisas positivas que poderá trazer, como por exemplo, a denúncia dos vícios típicos de um sistema político tradicional sem mudanças há 40 anos, e se hoje chegam à Assembleia da República, é também pela fraca linhagem política dos partidos tradicionais, incapazes de convencer os portugueses.
A Aliança foi um dos derrotados, porque não conseguiu eleger o seu líder Santana Lopes. Acho que faltou ideias novas e transformadoras ao partido, e, acima de tudo, faltou um distanciamento do PSD nessas mesmas ideias, que não passaram para os portugueses. Santana Lopes merecia mais, e, em comparação com alguns que entraram, é injusto, porque a sua imagem política não condiz com a pessoa que é. Basta ver o que fez pelos sítios por onde passou. É de enaltecer a sua coragem, e é pena que não tenha sido eleito. Depois disto, fica difícil.





quinta-feira, 3 de outubro de 2019

Diogo Freitas do Amaral, legado de um democrata-cristão





Dificilmente existiria CDS se não existisse Diogo Freitas do Amaral. E o CDS jamais poderá negar essa evidência, e não será um minuto de silêncio a homenagem justa, porque um fundador merece mais, e mais que não seja, o respeito pela história. Hoje, se ainda existem muitas pessoas pessoas que votam CDS é graças a estes, que num determinado tempo, souberam fazer política com elevação e determinação. É ao Adelino Amaro da Costa, que foi figura ímpar na democracia, e principalmente no CDS. É graças ao Lucas Pires. É graças ao João Morais Leitão. É graças ao Adriano Moreira, entre outros. É graças a muitos autarcas, entre eles por exemplo o de Esposende, o Engenheiro Losa Faria. Sim aqueles fiéis que votam sempre no partido é graças a estes políticos referenciados, que lutavam por convicções e valores, o que foi esvanecendo com o tempo. Basta olhar para o CDS actual, que não tem a capacidade de chegar às pessoas, não existe ligação com o eleitorado, esses eleitores que estão a desaparecer, acompanhados pelo desaparecimento das suas figuras históricas. E essa falta de capacidade de chegar até às pessoas ilustra bem a pouca ligação à história, e talvez isso resulte na provável pobre homenagem a alguém que merecia uma grande homenagem, pelo que fez e ajudou a fazer.
Será recordado como um independente, mais um dos poucos que restam e restavam e tanta falta faz a uma democracia. Um dia perguntei a António Lobo Xavier se tinha pago o preço pela sua opinião independente e o mesmo referiu que nunca sentiu isso. Mas, nunca tendo perguntado o mesmo a Freitas do Amaral, acho e tenho a ideia que este pagou esse preço, infelizmente. 
Era um dos que restava (depois da ida de Sá Carneiro, Cunhal e Mário Soares), um pai da democracia portuguesa, que perdera o último que liderou o projecto político após revolução dos cravos, aliado ao inegável e inestimável contributo académico que deixou na área do Direito, onde foi um distinto, que poderia ter tido outro percurso, não tivesse pago o preço da sua independência.
Fica o legado de um puro democrata-cristão.